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Opinião
RECUPERAR NÃO CHEGA!
Recuperar é indispensável. Mas apenas a criação de valor permitirá a Portugal crescer de forma sustentável e afirmar-se num mundo cada vez mais competitivo.
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A resposta pública a momentos de crise tende, compreensivelmente, a concentrar-se na reposição do que foi perdido. Infraestruturas danificadas, actividade económica interrompida, cadeias produtivas fragilizadas e comunidades afectadas exigem intervenção rápida e eficaz do Estado. Contudo, limitar o PTRR - Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência a um exercício de mera reconstrução significaria desperdiçar uma oportunidade estratégica rara: a de reposicionar estruturalmente a economia portuguesa para competir num contexto internacional cada vez mais exigente.

Portugal não precisa apenas de recuperar. Precisa de crescer melhor, produzir mais valor e reforçar a sua capacidade competitiva de forma duradoura.

A verdadeira medida do sucesso do PTRR não será o volume financeiro executado nem a velocidade de absorção dos fundos, mas sim a capacidade de transformar investimento público e privado em produtividade, inovação e criação sustentada de riqueza. Programas desta natureza só cumprem plenamente o seu objectivo quando conseguem alterar positivamente o perfil económico do país, reduzindo de facto vulnerabilidades estruturais e aumentando o valor acrescentado gerado pelas empresas nacionais.

Neste contexto, o investimento público deve assumir uma lógica clara de impacto económico estrutural. Infraestruturas logísticas eficientes, redes energéticas resilientes, digitalização avançada e sistemas de abastecimento robustos são respostas a riscos recentes, mas devem ser também condições essenciais para reduzir custos de contexto e permitir às empresas competir em igualdade de circunstâncias nos mercados internacionais. Recuperar activos é necessário, mas criar condições para investir melhor é decisivo.

Ao mesmo tempo, importa reconhecer que a resiliência económica não se constrói exclusivamente através do Estado. São as empresas que asseguram a continuidade produtiva, o abastecimento de bens essenciais, o emprego e a capacidade exportadora. O PTRR deve, por isso, mobilizar o investimento privado como verdadeiro motor de transformação económica, privilegiando projetos que reforcem a inovação, a modernização industrial, a digitalização e a internacionalização.

Cada euro de financiamento público deve funcionar como catalisador de investimento empresarial adicional. Sem essa lógica multiplicadora, o risco é regressarmos rapidamente ao ponto de partida, sem ganhos estruturais de competitividade.

Mas há uma dimensão frequentemente subvalorizada no debate económico nacional: a criação de valor através da inovação e das marcas. Num mercado globalizado, competir apenas pelo preço ou pela escala é uma estratégia limitada e, para economias de dimensão média como a portuguesa, dificilmente sustentável. O verdadeiro diferencial competitivo reside na capacidade de desenvolver produtos diferenciados, incorporar conhecimento, proteger propriedade intelectual e construir marcas reconhecidas e valorizadas internacionalmente.

Marcas fortes não são apenas instrumentos comerciais. São activos económicos estratégicos. Representam confiança, investimento continuado, inovação permanente e capacidade de conquistar mercados externos. Países que conseguiram acelerar o seu desenvolvimento económico fizeram-no apoiando empresas capazes de transformar conhecimento em valor e valor em reputação internacional.

O PTRR deve, por isso, assumir claramente a promoção da inovação orientada ao mercado e o fortalecimento das marcas nacionais no seu quadro de prioridades económicas. Apoiar o desenvolvimento de produto, o design, a tecnologia, a sustentabilidade e a internacionalização não é um objetivo secundário, é uma condição para aumentar exportações, melhorar margens económicas e consolidar emprego qualificado.

Este desafio exige igualmente um enquadramento regulatório favorável ao investimento. A simplificação administrativa, tantas vezes anunciada e raramente concretizada, constitui talvez a mais importante reforma económica estrutural ao alcance do país. Reduzir prazos de licenciamento, eliminar redundâncias burocráticas e garantir previsibilidade regulatória pode ter um impacto superior ao de muitos incentivos financeiros.

A competitividade constrói-se tanto através do financiamento disponível como da confiança no ambiente económico. As empresas investem quando conseguem antecipar regras estáveis, decisões rápidas e processos adequados e transparentes.

Finalmente, o PTRR deve ser entendido como um programa de transformação nacional e não como um exercício transitório de resposta a uma crise específica. A recuperação é necessariamente de curto prazo. A competitividade constrói-se ao longo de décadas. Se o país utilizar este instrumento para acelerar a inovação, reforçar as cadeias de valor, apoiar as marcas nacionais e reduzir constrangimentos estruturais, estará a transformar um momento adverso numa verdadeira oportunidade de desenvolvimento.

Portugal tem demonstrado capacidade empresarial, talento e abertura internacional. O desafio agora é criar as condições para que essa capacidade se traduza em maior valor económico, maior autonomia produtiva e maior presença global das empresas portuguesas.

Recuperar é indispensável. Mas apenas a criação de valor permitirá a Portugal crescer de forma sustentável e afirmar-se num mundo cada vez mais competitivo.