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Opinião
O futuro do trabalho discutiu-se no Porto. E a conversa foi, sobretudo, sobre pessoas.
Happiness Camp. Entre a inteligência artificial, a conexão humana e a liberdade de escolha, uma conferência que deixou mais perguntas do que respostas.
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Esta semana passei um dia numa das maiores conferências europeias sobre o futuro do trabalho: Happiness Camp. Entre a inteligência artificial, a conexão humana e a liberdade de escolha, uma conferência que deixou mais perguntas do que respostas.

Uma conversa que podia ter acontecido em qualquer capital do mundo. Aconteceu no Porto. E talvez essa seja uma primeira lição: não é preciso estar numa grande capital para promover grandes conversas.

O que não estamos dispostos a delegar à inteligência artificial? Sabemos verdadeiramente ouvir alguém que pensa de forma diferente? Estamos a transformar as organizações ou apenas a tornar mais agradáveis ambientes que continuam a gerar mal-estar? E, se a tecnologia nos devolver tempo, o que vamos fazer com ele?

As cinco ideias que retiraria das minhas notas:

1. O futuro do trabalho começa nas pessoas. Num mundo obcecado com tecnologia, produtividade e eficiência, a conexão humana, a empatia, a capacidade de escutar e confiar continuam a ser fundamentais. E escutar verdadeiramente também significa aceitar opiniões que nos deixam desconfortáveis. Num contexto profissional em que falamos constantemente de produtividade, resultados e desempenho, talvez seja importante recuperar esta ideia: as organizações são feitas de pessoas e a qualidade das relações continua a determinar uma parte importante da sua capacidade de criar valor.

2. A inteligência artificial obriga-nos a escolher. A pergunta não é apenas o que podemos delegar à IA, mas o que não queremos delegar: as relações humanas, a responsabilidade e as decisões conscientes. E, se todos conseguirmos ser mais eficientes, o que faremos com o tempo que ganharmos? Vamos simplesmente produzir mais? Ou aproveitar essa oportunidade para pensar, inovar, aprender e investir naquilo que verdadeiramente nos distingue? A tecnologia pode libertar-nos de muitas tarefas. Mas não deve libertar-nos da responsabilidade de decidir.

3. O bem-estar não se constrói com mudanças cosméticas. Não basta tornar mais agradável um ambiente que continua a produzir desconforto. A transformação exige mudar comportamentos, relações e culturas organizacionais. Se não alterarmos aquilo que está na origem do problema, estaremos apenas a tornar mais bonito um ambiente que continua a não funcionar. O bem-estar organizacional exige liderança, confiança, capacidade de escuta, respeito e disponibilidade para questionar modelos de trabalho que deixaram de responder às necessidades das pessoas. E exige, acima de tudo, coragem para identificar aquilo que precisa realmente de mudar.

4. A liberdade e a responsabilidade são inseparáveis. Da concentração de poder nos monopólios físicos e digitais aos riscos das redes sociais para os jovens, passando pela transparência da IA, há uma pergunta transversal: quem decide e quem assume as consequências e se responsabiliza? A concentração de poder levanta questões sobre a capacidade de escolha, o acesso ao conhecimento e a possibilidade de diferentes pessoas e organizações participarem na construção do futuro. Daí a importância de se defender o acesso ao conhecimento e a sua democratização. Mas esta discussão não se esgota na economia ou na tecnologia. Os riscos associados às redes sociais, particularmente entre os mais jovens, lembram-nos que a conectividade não significa necessariamente conexão humana. É um paradoxo do nosso tempo: nunca tivemos tantas possibilidades de estar ligados e, simultaneamente, precisamos de prestar cada vez mais atenção à qualidade das nossas relações.

5. O futuro também depende daquilo em que acreditamos. Uma das experiências partilhadas envolvia dois grupos de pessoas. Umas consideravam-se sortudas; outras acreditavam ter pouca sorte. Perante uma tarefa que consistia em contar imagens num jornal, as primeiras identificaram uma mensagem que indicava o número total de imagens. As segundas tenderam a concentrar-se na tarefa e a ignorar essa informação. A experiência dos participantes que se consideravam sortudos ou azarados é uma excelente metáfora para refletir sobre perceção, oportunidade, motivação e persistência, algo profundamente humano. Nas organizações, esta reflexão parece-me particularmente relevante. Talvez liderar também seja criar condições para que as pessoas consigam identificar possibilidades onde antes apenas viam obstáculos.

Há ainda uma sexta ideia: o melhor acontece na interseção de mundos aparentemente incompatíveis. As descobertas mais interessantes acontecem, muitas vezes, quando cruzamos conhecimentos, experiências e pessoas que habitualmente não se encontram. Talvez seja precisamente aí que reside uma das maiores oportunidades para o futuro. Quando pessoas com experiências, conhecimentos e opiniões diferentes se sentam à mesma mesa. A inovação exige conhecimento, mas também curiosidade e disponibilidade para explorar territórios desconhecidos. Exige que estejamos preparados para ouvir aquilo que não esperávamos ouvir. E exige que não confundamos os centros tradicionais de decisão com os únicos lugares onde podem nascer ideias relevantes.

O futuro depende da capacidade de criar encontros inesperados e transformar ideias em ação. Afinal, talvez o futuro do trabalho não dependa apenas daquilo que a tecnologia será capaz de fazer, mas sobretudo daquilo que nós escolhermos fazer com ela. O Happiness Camp, realizado no Porto, é também um exemplo dessa possibilidade. As grandes conversas não precisam de acontecer sempre nos mesmos lugares. Precisam de pessoas disponíveis para as promover e de outras igualmente disponíveis para participar.

Num futuro em que podemos delegar quase tudo, o que queremos continuar a fazer enquanto seres humanos?