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Opinião
O futuro da alimentação começa em quem se senta à mesa
A ciência dá consistência às soluções, as marcas tornam-nas reconhecíveis e a distribuição aproxima-as das pessoas. Precisamos que esta ligação funcione de ponta a ponta. As marcas assumem risco, investem, experimentam e constroem uma confiança ...
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A recente comemoração do Dia Mundial da Alimentação e o evento organizado pelo Grupo Lactalis, oara que fui convidado, levou-me a esta reflexão sobre o futuro da alimentação, em primeira linha com os olhos postos nos ingredientes, na tecnologia e nas próximas novidades da prateleira.

Tudo isso importa. Mas talvez convenha começar por uma pergunta mais elementar: quem se vai sentar à mesa? Antes de imaginar o produto de amanhã, precisamos de compreender a vida de quem o vai escolher. O sector alimentar terá tanto mais futuro quanto melhor souber acompanhar as pessoas. E as pessoas, felizmente, continuam a dar mais trabalho a perceber do que uma folha de cálculo.

Vivemos mais tempo, os lares são mais pequenos, as origens mais diversas e as rotinas menos previsíveis. A família de quatro pessoas, reunida à mesma hora para jantar, continua a existir, mas já não pode servir de molde universal. Quem vive sozinho, quem envelhece ou quem chega de outro país traz necessidades diferentes. Porções, formatos, receitas e modos de preparação têm de acompanhar essa diversidade. Vender sempre a mesma solução e esperar que seja a vida a adaptar-se ao produto é, seguramente, uma estratégia com os dias contados.

Há, para além disso, três recursos que disputamos em cada decisão de compra: dinheiro, tempo e atenção. O consumidor faz a gestão dos três, muitas vezes ao mesmo tempo e raramente nas condições tranquilas que imaginamos numa sala de reuniões. A conveniência ganha importância porque resolve problemas concretos. Mas poupar minutos não deveria obrigar a abdicar de qualidade, sabor ou equilíbrio alimentar. A ambição do sector deve ser tornar essas dimensões compatíveis, sem apresentar ao consumidor a factura de cada boa intenção em separado.

O chamado consumidor médio é muito útil nas apresentações. Encontrá-lo no supermercado é uma tarefa consideravelmente mais difícil. A mesma pessoa procura o preço mais baixo numa categoria e permite-se um pequeno luxo noutra. Pode comprar por impulso num dia e comparar tudo ao cêntimo no seguinte. Não se trata de incoerência: trata-se de gerir o dia-a-dia. As marcas precisam de interpretar estas escolhas com menos surpresa e mais atenção. Quem exige coerência absoluta ao consumidor talvez devesse começar por observar o seu próprio carrinho.

O preço é decisivo, sobretudo quando o orçamento aperta. Seria um erro minimizar essa realidade. Seria igualmente redutor concluir que nada mais conta. Qualidade, confiança, prazer e facilidade de utilização também influenciam a escolha. Um produto mais barato pode sair caro se uma parte acabar no lixo; uma solução conveniente pode libertar tempo que faz falta noutro lugar. Explicar valor implica tornar estes benefícios claros e demonstráveis. A notoriedade ajuda a chegar à primeira compra. A utilidade e a experiência determinam se haverá uma segunda.

É aqui que a inovação tem de provar o que vale. A pergunta mais realista será, muitas vezes, «o que melhora a vida de quem compra?». Melhorar uma receita, ajustar uma porção, facilitar uma abertura ou prolongar a conservação pode ter mais impacto do que uma novidade muito fotogénica. Nem todas as inovações precisam de uma conferência de imprensa, mas todas deveriam oferecer mais do que um comunicado. E há um júri que raramente aceita recurso: o sabor. Se a experiência falha à mesa, os melhores argumentos dificilmente conseguem salvar a repetição da compra.

A ciência dá consistência às soluções, as marcas tornam-nas reconhecíveis e a distribuição aproxima-as das pessoas. Precisamos que esta ligação funcione de ponta a ponta. As marcas assumem risco, investem, experimentam e constroem uma confiança que fica exposta em cada utilização do produto. A distribuição conhece o momento da escolha. As marcas acompanham a experiência de consumo. Cruzar estas aprendizagens permite responder melhor às necessidades reais. E a inovação deve procurar escala e acessibilidade: melhorar a alimentação de muitos vale mais do que impressionar apenas uns poucos.

A tecnologia pode ajudar muito neste caminho. A inteligência artificial pode melhorar a previsão da procura, apoiar o desenvolvimento de produtos e reduzir desperdícios. O digital pode facilitar o acesso à informação e simplificar tarefas. Mas convém preservar algum discernimento: um código QR tanto pode esclarecer uma dúvida como escondê-la atrás de cinco cliques. O consumidor quer perceber o que compra… não quer frequentar um curso intensivo antes de escolher um qualquer produto. Tornar a informação disponível é um princípio. Torná-la compreensível e útil é o trabalho que se segue.

Também a promoção de escolhas mais equilibradas e sustentáveis precisa de descer à vida concreta. Entre a resposta a um inquérito e a compra efectiva há um orçamento, uma rotina e, por vezes, uma criança com fome ou um adulto sem paciência. A literacia alimentar ganha força quando ajuda a comprar, dosear, conservar e preparar. Perde-a quando transforma cada refeição num exame moral. Podemos informar melhor sem dar sermões. Respeitar gostos, possibilidades e circunstâncias é uma condição para conseguir mudanças que durem mais do que uma campanha.

A sustentabilidade será mais convincente quando o consumidor reconhecer as respectivas vantagens no quotidiano: menos desperdício, melhor conservação, utilização mais fácil e informação credível. Tem de estar incorporada nos produtos e nos processos, em vez de depender apenas da boa vontade de quem compra. E precisa de caber no orçamento. Uma proposta que exige sempre mais dinheiro, mais tempo e mais esforço terá dificuldade em passar da intenção ao hábito. O progresso deve medir-se também pela capacidade de tornar melhores escolhas possíveis para mais pessoas.

E há trabalho que nenhuma empresa consegue fazer sozinha. O desperdício começa a combater-se no planeamento e continua na produção, na logística, na loja e em casa. Cada produto que acaba no lixo leva consigo recursos e dinheiro. Embalagens, conservação, recolha e reciclagem exigem soluções articuladas: de pouco serve aperfeiçoar uma peça se o sistema não acompanhar. Na comunicação alimentar, mensagens claras e coerentes ajudam mais do que uma multiplicação de explicações incompatíveis. A confusão também ganha escala, mas não é exactamente esse o crescimento que procuramos.

Esta colaboração deve estender-se aos lugares onde a alimentação é consumida. As fronteiras entre supermercado, restauração e refeições prontas tornam-se menos nítidas, porque a necessidade de comer atravessa vários canais. Na restauração e nas refeições colectivas há espaço para explicar melhor os produtos, os ingredientes e as marcas que chegam ao prato. A confiança também se constrói aí. Conhecer melhor o que comemos não deveria depender de termos sido nós a retirar a embalagem da prateleira ou de o produto chegar à mesa com o rótulo à vista.

Ao poder público cabe contribuir com condições previsíveis para investir e inovar, e com políticas que tenham em conta a realidade das empresas e das famílias. A acessibilidade alimentar também se constrói com eficiência, melhores processos e redução de perdas ao longo da cadeia. E a cooperação entre os seus agentes precisa de objectivos e resultados verificáveis. Fotografias de grupo já temos bastantes. O que interessa é saber se, depois delas, conseguimos fazer chegar melhores soluções a mais consumidores e dar à inovação portuguesa condições para crescer, cá e lá fora.

Nos próximos anos, gostaria de ver um sector ainda mais capaz de acompanhar a diversidade dos lares, reduzir desperdícios e alargar o acesso a uma alimentação variada, equilibrada e saborosa. Marcas escolhidas pelo valor que entregam e informação que ajude a decidir sem exigir trabalho de detective. O futuro da alimentação terá muita ciência e muita tecnologia, mas continuará a ter memória, afecto e prazer. Podemos actualizar uma aplicação durante a noite, mas mudar hábitos demora bastante mais. Convém avançarmos com ambição, à velocidade humana e é à mesa que se percebe se estamos no caminho certo.