A propósito da notícia do encerramento das suas lojas e do abandono da GIFI do mercado nacional, há uma pergunta que regressa ciclicamente ao debate sobre o retalho alimentar e não alimentar em Portugal: haverá lojas a mais?
A interrogação surge quase sempre com um certo tom de verdade presumida. Basta percorrer qualquer zona urbana - de Lisboa ao Porto, de Braga a Leiria - para perceber que as insígnias se multiplicam, muitas vezes a poucas centenas de metros umas das outras. Novas lojas surgem em antigas agências bancárias e confeitarias, em lojas devolutas ou em pisos térreos de edifícios reabilitados. Em muitas ruas, aquilo que outrora era comércio tradicional é hoje ocupado por formatos de proximidade das mais importantes redes de distribuição.
Mas talvez a pergunta esteja mal formulada. A verdadeira questão não é saber se existem lojas a mais. A questão relevante é perceber se estamos perante uma transformação profunda da forma como os portugueses compram alimentos e outros produtos de supermercado e se a expansão das lojas de proximidade é causa ou consequência dessa mudança.
Na realidade, é provavelmente ambas… Durante décadas, o modelo dominante do retalho alimentar assentou numa lógica relativamente simples: uma grande compra semanal ou quinzenal, realizada num hipermercado ou num supermercado de média dimensão, muitas vezes localizado fora do centro urbano. Era o modelo da “compra grande”, planeada, estruturada, associada ao automóvel, ao estacionamento e à existência de uma despensa doméstica capaz de armazenar quantidades significativas de produtos.
Esse modelo não desapareceu, mas deixou de ser dominante. O consumidor urbano português faz hoje compras mais pequenas, mais frequentes e mais imediatas. Compra menos de cada vez, mas compra mais vezes. A despensa deixou de ser um espaço de acumulação para passar a ser um espaço de rotação rápida. Em vez de planear para uma semana inteira, muitos consumidores compram para dois ou três dias… e muitas vezes apenas para o próprio dia.
É neste contexto que a proximidade ganha um novo protagonismo. As lojas de proximidade respondem a esta nova lógica de consumo, mas também a reforçam. Quanto mais perto está a loja, menor é o incentivo para fazer uma compra grande. Quanto mais fácil é comprar hoje, menor é a necessidade de planear para amanhã. A proximidade cria hábitos, e os hábitos acabam por moldar o próprio mercado.
Mas esta transformação não resulta apenas de mudanças culturais ou comportamentais. Resulta também de alterações profundas na forma como vivemos nas cidades. A crise do imobiliário, por exemplo, está a alterar silenciosamente a organização da vida doméstica. O aumento do custo da habitação tem reduzido a área média das casas, sobretudo nas zonas urbanas mais densas. As cozinhas são mais pequenas, as despensas praticamente desapareceram e o espaço disponível para armazenamento alimentar tornou-se limitado. Menos espaço em casa significa menos capacidade para armazenar produtos e, consequentemente, uma maior frequência de compras.
Neste contexto, a loja de proximidade funciona quase como uma extensão informal da própria casa. Em vez de acumular produtos numa despensa doméstica que já não existe ou no frigorífico, com cada vez menor capacidade de armazenagem, o consumidor passa a recorrer com maior frequência a um supermercado situado a poucos minutos de distância. A proximidade substitui, em certa medida, a capacidade de armazenamento.
A própria estrutura dos agregados familiares reforça esta tendência. As famílias portuguesas são cada vez mais pequenas: há mais pessoas a viver sozinhas, mais casais sem filhos e mais lares unipessoais. Para estes consumidores, a lógica da grande compra semanal perde relevância. Comprar pouco e frequentemente é mais racional e mais compatível com o seu quotidiano.
Curiosamente, o mesmo fenómeno manifesta-se também em muitos agregados familiares imigrantes, ainda que por razões diferentes. Muitas dessas famílias são mais numerosas, mas vivem frequentemente em habitações com menos espaço disponível por pessoa. Também aqui a compra frequente em lojas de proximidade se revela uma solução prática.
A expansão das lojas de proximidade é, assim, simultaneamente resposta e consequência de um conjunto de transformações demográficas, urbanísticas e económicas que estão a redefinir o consumo alimentar.
Existe uma outra consequência menos discutida desta densificação da rede de lojas no tecido urbano: o seu impacto no comércio electrónico na área alimentar. Durante anos, o comércio online foi apresentado como o futuro inevitável do retalho alimentar. Em alguns mercados, como o britânico, esse cenário materializou-se de forma significativa. Em Portugal, contudo, o crescimento tem sido muito mais limitado. E uma das razões pode estar precisamente na extraordinária densidade da rede física de supermercados.
Quando existe um supermercado a cinco minutos a pé, o valor acrescentado de uma entrega ao domicílio diminui substancialmente. O tempo de espera, os custos de entrega e a necessidade de planear a encomenda com antecedência tornam-se menos atractivos quando a alternativa é resolver a compra em poucos minutos. A multiplicação de lojas físicas, mesmo podendo apoiar estratégias do chamado click & collect, pode funcionar como um dos maiores travões à expansão do comércio online alimentar.
Esta expansão contínua da rede física gera uma outra questão. Se há tantas lojas novas a abrir, isso resulta do atractivo crescimento de vendas das lojas em funcionamento, ou, ao contrário, as vendas comparáveis - as chamadas vendas like-for-like - tendem, em muitos casos, a crescer pouco ou mesmo a estagnar?
A resposta reside no facto de que muitas dessas novas lojas não criam procura adicional. Limitam-se a redistribuí-la. Uma nova loja pode conquistar clientes a uma insígnia concorrente, mas pode também retirar clientes a uma loja da mesma cadeia situada a poucos quarteirões de distância. O crescimento da rede transforma-se, assim, parcialmente, num processo de canibalização interna.
Nestas circunstâncias, o crescimento passa a depender menos do aumento global do consumo e mais da conquista de quota de mercado entre operadores. Na verdade, actualmente os operadores que ganham espaço são aqueles que abrem mais lojas ou, pelo menos, lojas mais eficientes e, ao contrário, aqueles que não abrem, aparentemente não crescem. E é precisamente neste ponto que regressamos à pergunta inicial: há lojas a mais?
Talvez não. Mas há certamente um mercado cada vez mais fragmentado, onde a proximidade reduz barreiras de entrada e abre espaço para o aparecimento de novos conceitos comerciais. A densificação do retalho alimentar nas cidades pode criar oportunidades não apenas para as grandes cadeias, mas também para redes mais pequenas, para formatos especializados e para conceitos híbridos entre retalho, conveniência e restauração.
A cidade densa transforma-se, assim, num ecossistema comercial particularmente dinâmico. O risco, naturalmente, é outro: o de transformar a proximidade numa corrida à saturação, em que todos abrem mais lojas porque todos os outros também estão a abrir mais lojas. O resultado pode ser uma rede cada vez mais extensa, mas não necessariamente mais eficiente nem mais rentável.
Talvez por isso a pergunta “há lojas a mais?” continue a ser feita uma e outra vez. Mas talvez a pergunta verdadeiramente relevante seja outra: estaremos a assistir ao limite de expansão do modelo de proximidade ou apenas ao início de uma nova geografia do consumo urbano em Portugal?
A resposta ainda está longe de ser definitiva, como quase sempre acontece quando o comportamento do consumidor muda mais depressa do que os factores com que procuramos analisá-lo e as ‘gavetas’ em que pretendemos arrumá-lo.
