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Opinião
ENTRE A VONTADE E A CARTEIRA
As mudanças nas prioridades alimentares dos consumidores são o espelho de uma sociedade em transformação. O período pós-pandemia trouxe novas preocupações com a saúde e a segurança, mas o actual contexto económico e geopolítico impõe constrangimentos
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A evolução recente dos padrões alimentares na Europa e, por extensão, em Portugal, não pode ser compreendida sem atender a um contexto mais amplo de transformação social, económica e geopolítica. O relatório “Europe wants to eat better, so why isn’t it happening?”, elaborado pelo EIT Food Consumer Observatory,  constitui, neste âmbito, um contributo particularmente relevante, ao evidenciar alguma desarticulação entre intenção e comportamento: os europeus querem comer melhor, mas não conseguem traduzir essa vontade numa prática consistente .

Esta aparente contradição não é um acaso. Pelo contrário, resulta de uma reconfiguração profunda das prioridades dos consumidores no período pós-pandemia, amplificada por um ciclo económico incerto e por um contexto internacional marcado por sucessivas crises, da inflação energética à instabilidade geopolítica. A alimentação tornou-se, assim, um reflexo directo das ansiedades, expectativas e constrangimentos que atravessam as sociedades actuais.

É importante reconhecer que a pandemia alterou de forma duradoura a relação dos consumidores com a alimentação. Durante esse período, assistiu-se a um reforço da preocupação com a saúde, com a origem dos alimentos e com a segurança das cadeias de abastecimento. Esse legado permanece: segundo o relatório, mais de metade dos europeus (51%) afirma querer adoptar uma alimentação mais saudável, confirmando que a saúde continua a ser a principal prioridade alimentar .

No entanto, essa vontade ou ambição convive com uma realidade menos optimista. O mesmo relatório evidencia que os comportamentos não acompanham as intenções: persistem défices no consumo de nutrientes essenciais, como fibra, frutas e vegetais, e apenas cerca de metade dos consumidores considera ter uma dieta equilibrada. Pior, observa-se um paradoxo particularmente relevante: apesar da crescente literacia alimentar, os consumidores nem sempre optam pelos ingredientes e produtos mais saudáveis.

Este desfasamento entre intenção e acção é, em larga medida, explicado por factores que extravasam o domínio individual. O relatório identifica claramente o peso das restrições económicas, nomeadamente o custo dos alimentos,  e a dificuldade em alterar hábitos enraizados como principais barreiras à mudança. E estes factores estão intimamente ligados ao actual ciclo económico.

Num contexto de inflação persistente e de perda de poder de compra, a acessibilidade económica emerge como uma prioridade crescente. Não por acaso, a “acessibilidade” surge já como a segunda principal preocupação dos consumidores europeus, logo a seguir à saúde. Isto significa que, embora os consumidores desejem comer melhor e regressar ao consumo das suas marcas e  produtos favoritos, a sua capacidade efectiva para o fazer é condicionada pelo rendimento disponível e pelo preço dos alimentos.

E aqui a análise europeia encontra um paralelismo evidente com a realidade portuguesa. Em Portugal, onde os níveis de rendimento médio são inferiores à média da UE, a pressão inflacionista tem um impacto particularmente significativo nas escolhas alimentares. A crescente sensibilidade ao preço, que temos vindo a observar e a sublinhar, traduz-se numa procura acrescida por soluções mais económicas, muitas vezes em detrimento da qualidade nutricional ou da diversidade alimentar.

Acresce que o consumidor português, tal como o europeu, vive hoje num ambiente de incerteza permanente. As crises geopolíticas recentes - da guerra na Ucrânia às tensões no Médio Oriente - têm efeitos directos e indirectos sobre os preços das matérias-primas, os custos de produção e a estabilidade das cadeias de abastecimento. Esta instabilidade gera um sentimento de insegurança que se reflecte nas decisões quotidianas,  muito especialmente na alimentação.

O relatório é claro ao demonstrar que, nestes contextos, prioridades como a sustentabilidade tendem a perder relevância relativa. Embora a preocupação ambiental continue presente, verifica-se uma diminuição do interesse em adoptar comportamentos alimentares sustentáveis, com menos de metade dos europeus a considerar que tem uma dieta sustentável . Este recuo não traduz uma rejeição dos valores, mas sim uma hierarquização consciente e pragmática das prioridades: quando o orçamento aperta, a sustentabilidade perde terreno para a acessibilidade e a conveniência.

Este fenómeno é igualmente visível em Portugal. Apesar de uma crescente consciencialização ambiental, a realidade económica condiciona a adopção de práticas mais sustentáveis. Como temos repetidamente comentado, não é possível exigir mudanças estruturais nos padrões de consumo sem garantir condições económicas que as tornem viáveis.

Outro aspecto relevante do relatório prende-se com as diferenças geracionais. Os consumidores mais jovens revelam maior abertura à inovação e à mudança, mas são também aqueles que enfrentam maiores dificuldades económicas e menor sensação de controlo sobre as suas escolhas . Este dado é particularmente significativo, pois indica que o potencial de transformação existe, mas está condicionado por factores estruturais.

Também em Portugal esta dualidade é evidente. As gerações mais jovens demonstram maior sensibilidade a temas como a saúde, a sustentabilidade e a origem dos alimentos, mas enfrentam simultaneamente alguma precariedade laboral, salários e dificuldades de acesso à habitação. Estas condicionantes condicionam escolhas e limitam a capacidade de traduzir intenções em comportamentos consistentes.

Não é, pois, difícil concluir que as escolhas alimentares não são apenas o resultado de preferências individuais, mas sim o reflexo de um sistema complexo onde interagem factores económicos, sociais e políticos. O relatório sublinha, aliás, que a confiança no sistema alimentar, dos produtores às instituições, passando por indústria e retalhistas, é um elemento crítico para promover mudanças .

É precisamente aqui que o papel das marcas assume particular relevância. As marcas têm sido, em Portugal e na Europa, um pilar de confiança, inovação e qualidade, contribuindo para garantir padrões elevados de segurança alimentar e para democratizar o acesso a produtos diversificados e a capacidade de inovação das marcas é essencial para responder às novas expectativas dos consumidores, conciliando saúde, conveniência e preço.

Mas essa resposta não pode ser isolada. Exige uma abordagem integrada que envolva políticas públicas, estratégias empresariais e educação do consumidor. O relatório aponta, de forma clara, para a necessidade de soluções que combinem acessibilidade económica com promoção de hábitos saudáveis. Em Portugal, isso implica, entre outras medidas, uma reflexão sobre a fiscalidade alimentar, o apoio à inovação e a promoção de literacia alimentar.

Em conclusão, as mudanças nas prioridades alimentares dos consumidores são o espelho de uma sociedade em transformação. O período pós-pandemia trouxe novas preocupações com a saúde e a segurança, mas o actual contexto económico e geopolítico impõe constrangimentos que limitam a concretização dessas aspirações.

Compreender esta realidade é essencial para evitar leituras simplistas e enviesadas e para desenhar respostas eficazes. Não se trata apenas de incentivar melhores escolhas, mas de criar condições para que essas escolhas sejam possíveis. Esse é, aliás, o grande desafio que o relatório coloca e que, em Portugal, tem ainda mais razão de ser.